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Segunda-Feira, 27 de Maio de 2002


Roça universal

Marcos Dias

Depois do Grammy Latino na categoria música sertaneja, Pena Branca lança seu segundo disco solo, ''Pena Branca canta Xavantinho''

Depois de ganhar o Grammy Latino 2001 para melhor disco de música sertaneja com seu primeiro CD solo, Semente caipira (Kuarup), Pena Branca continua a extrapolar a beleza em seu segundo trabalho: Pena Branca canta Xavantinho. É uma homenagem ao irmão, morto em 1999, que com ele formava uma das duplas sertanejas mais cultuadas do Brasil.

Curioso é que o disco que deu o Grammy a Pena Branca teve o repertório escolhido por ele e o irmão. Mas Pena não foi oportunista e deixou a homenagem para depois. "Pensei: se tiver lenha pra queimar, faço outro". E nesse estão concentradas as memórias de uma vida inteira. O tempo em que viviam na roça, no interior de Minas, carpindo, cortando arroz com cutelo, com os outros cinco irmãos, e a ida com os pais, que cantavam, às folias de reis, aos batuques.

E também os programas matinais que participaram, as sucessivas mudanças do nome da dupla, dado por radialistas: Peroba e Jatobá, Marcelo e Marcelinho, Xavante e Xavantinho, até chegar ao Pena Branca (José Ramiro) e Xavantinho (Ranulfo Ramiro). Em 69 vão para São Paulo, trabalham como carregadores de cargas, até começarem a participar de festivais, como o MPB Shell 80, quando classificaram Que terreiro é esse?, que também integra o novo disco. À época, ouviram de Gonzagão: "Se tem uma coisa diferente que pode acontecer na MPB, taí". E veio o primeiro disco, Velha morada, e apresentações na tevê como no saudoso Som Brasil, com Rolando Boldrin, levando a dupla para além das fronteiras da Região Sudeste. Sem contar que a dupla, e agora Pena Branca, cujo avô materno é baiano, é mesmo um patrimônio do Brasil.

E não se renderam às pressões, como quando em 82 a gravadora RGE queria que colocassem no disco coisas mais "modernas". "Queriam que a gente gravasse músicas de dor de cotovelo para poder vender. Mas batemos o pé: nosso estilo é esse. E ficamos cinco anos sem gravar". Mas como há coisas que precisam acontecer, a constatação do rei do baião ficou explícita para todo mundo que pôde ouvir, em 87, na antológica gravação do CD e da faixa O cio da terra, com Milton Nascimento - um dos momentos mais transcendentais da MPB. "Foi tudo espontâneo e a gente fez de cabeça que é o som que a gente sempre fez no campo", conta Pena Branca, lembrando que o próprio Milton admitiu certa vez que, com a gravação, ganhou outro público, pois o homem do campo não conhecia seu trabalho. E a dupla fez bem mais para a pluralidade e disseminação da própria música popular com suas leituras para canções de Djavan, Tom Jobim, Caetano Veloso, Patativa de Assaré e Tavinho Moura, dentre outros. E também desses mais novos, Zezé Di Camargo, Chitãozinho e Xororó, lembrando que esses últimos, antigamente, "cantavam modas sérias". E é benevolente com os demais: "Eles não têm culpa, sonham com dinheiro, fazendas e essas coisas. Eu e o mano sempre fizemos para viver, temos as coisas da gente, mas sem trovejar nem relampear". Pena Branca diz que, quando os encontra, recomenda: "Vocês que têm a mídia na mão, quando fizerem um disco gravem pelo menos duas faixas de raiz para que isso tenha força e não deteriore". Porque ele acredita que as pessoas estão se voltando mais para suas raízes. Tanto que cada vez mais recebe convite de jovens músicos para participar de shows e gravações, como o grupo Matuto Moderno e o projeto Encontros de Raízes, que faz pelo país com Chico Lobo, há dois anos.

FICHA

Artista: Pena Branca

CD: Pena Branca canta Xavantinho

Gravadora: Kuarup

Preço: R$24

Presença da raiz

Não pairam dúvidas sobre o caminho próprio de Pena Branca, mesmo que a presença fantasmática do irmão coabite nos silêncios, na simplicidade elaborada e na compreensão radical de musicalidade que marca o CD Pena Branca canta Xavantinho. Com direção musical de Gilvan de Oliveira, que também toca violão e viola, a qualidade acústica do som de Pena Branca também recebeu convidados especiais: Oswaldinho do Acordeon, Renato Teixeira, Chico Lobo, Nivaldo Ornelas e Serginho Silva dialogam com Pena. E também o cantador baiano Xangai: "A mata gemeu era a cara dele", diz Pena, que também convidou Renato Teixeira para a Suíte do trem, composta por três músicas: Trem das gerais, Maria louca e Zé Granfino.

O repertório compreende cerca de 70% da produção de Xavantinho e surpreende, em muitas faixas, com Pena Branca fazendo várias vozes, como na Oração do camponês, em que faz quatro. "Para agradecer a Deus tem que ser muitas vozes", diz Pena Branca, com transparência ímpar. E também no terno de reis Encontro de bandeiras, em que as suas vozes voam.

Lembra (e muito) a sonoridade que ele e o irmão consolidaram na música sertaneja de verdade. Atitude que lhes deu, por exemplo, cinco prêmios Sharp no mesmo ano, em 1990, e com o CD Cantadô de mundo afora, que continha Casa de barro, música que recebeu no novo disco uma versão fabulosa com violão e clarineta. "É tão simples que para quem está acostumado com um exército tocando atrás fica difícil", pensa ele, que não utiliza instrumentos elétricos.

O CD também recupera a última aparição da dupla na tevê, quando lembraram da primeira música de Xavantinho, Primeira cantiga. No programa haviam cantado apenas 30 segundos, mas a tecnologia permitiu recuperar esse fragmento e Pena completou a canção. Semente caipira traz 15 faixas com 19 músicas que honram a música brasileira.

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