 Roça universal
Marcos
Dias
Depois do Grammy Latino na categoria música
sertaneja, Pena Branca lança seu segundo disco solo, ''Pena
Branca canta Xavantinho''
Depois de ganhar o Grammy Latino 2001 para
melhor disco de música sertaneja com seu primeiro CD solo,
Semente caipira (Kuarup), Pena Branca continua a extrapolar a
beleza em seu segundo trabalho: Pena Branca canta Xavantinho.
É uma homenagem ao irmão, morto em 1999, que com ele formava
uma das duplas sertanejas mais cultuadas do Brasil.
Curioso é que o disco que deu o Grammy a Pena
Branca teve o repertório escolhido por ele e o irmão. Mas Pena
não foi oportunista e deixou a homenagem para depois. "Pensei:
se tiver lenha pra queimar, faço outro". E nesse estão
concentradas as memórias de uma vida inteira. O tempo em que
viviam na roça, no interior de Minas, carpindo, cortando arroz
com cutelo, com os outros cinco irmãos, e a ida com os pais,
que cantavam, às folias de reis, aos batuques.
E também os programas matinais que
participaram, as sucessivas mudanças do nome da dupla, dado
por radialistas: Peroba e Jatobá, Marcelo e Marcelinho,
Xavante e Xavantinho, até chegar ao Pena Branca (José Ramiro)
e Xavantinho (Ranulfo Ramiro). Em 69 vão para São Paulo,
trabalham como carregadores de cargas, até começarem a
participar de festivais, como o MPB Shell 80, quando
classificaram Que terreiro é esse?, que também integra o novo
disco. À época, ouviram de Gonzagão: "Se tem uma coisa
diferente que pode acontecer na MPB, taí". E veio o primeiro
disco, Velha morada, e apresentações na tevê como no saudoso
Som Brasil, com Rolando Boldrin, levando a dupla para além das
fronteiras da Região Sudeste. Sem contar que a dupla, e agora
Pena Branca, cujo avô materno é baiano, é mesmo um patrimônio
do Brasil.
E não se renderam às pressões, como quando em
82 a gravadora RGE queria que colocassem no disco coisas mais
"modernas". "Queriam que a gente gravasse músicas de dor de
cotovelo para poder vender. Mas batemos o pé: nosso estilo é
esse. E ficamos cinco anos sem gravar". Mas como há coisas que
precisam acontecer, a constatação do rei do baião ficou
explícita para todo mundo que pôde ouvir, em 87, na antológica
gravação do CD e da faixa O cio da terra, com Milton
Nascimento - um dos momentos mais transcendentais da MPB. "Foi
tudo espontâneo e a gente fez de cabeça que é o som que a
gente sempre fez no campo", conta Pena Branca, lembrando que o
próprio Milton admitiu certa vez que, com a gravação, ganhou
outro público, pois o homem do campo não conhecia seu
trabalho. E a dupla fez bem mais para a pluralidade e
disseminação da própria música popular com suas leituras para
canções de Djavan, Tom Jobim, Caetano Veloso, Patativa de
Assaré e Tavinho Moura, dentre outros. E também desses mais
novos, Zezé Di Camargo, Chitãozinho e Xororó, lembrando que
esses últimos, antigamente, "cantavam modas sérias". E é
benevolente com os demais: "Eles não têm culpa, sonham com
dinheiro, fazendas e essas coisas. Eu e o mano sempre fizemos
para viver, temos as coisas da gente, mas sem trovejar nem
relampear". Pena Branca diz que, quando os encontra,
recomenda: "Vocês que têm a mídia na mão, quando fizerem um
disco gravem pelo menos duas faixas de raiz para que isso
tenha força e não deteriore". Porque ele acredita que as
pessoas estão se voltando mais para suas raízes. Tanto que
cada vez mais recebe convite de jovens músicos para participar
de shows e gravações, como o grupo Matuto Moderno e o projeto
Encontros de Raízes, que faz pelo país com Chico Lobo, há dois
anos.
FICHA
Artista: Pena Branca
CD: Pena Branca canta Xavantinho
Gravadora: Kuarup
Preço: R$24
Presença da raiz
Não pairam dúvidas sobre o caminho próprio de
Pena Branca, mesmo que a presença fantasmática do irmão
coabite nos silêncios, na simplicidade elaborada e na
compreensão radical de musicalidade que marca o CD Pena Branca
canta Xavantinho. Com direção musical de Gilvan de Oliveira,
que também toca violão e viola, a qualidade acústica do som de
Pena Branca também recebeu convidados especiais: Oswaldinho do
Acordeon, Renato Teixeira, Chico Lobo, Nivaldo Ornelas e
Serginho Silva dialogam com Pena. E também o cantador baiano
Xangai: "A mata gemeu era a cara dele", diz Pena, que também
convidou Renato Teixeira para a Suíte do trem, composta por
três músicas: Trem das gerais, Maria louca e Zé Granfino.
O repertório compreende cerca de 70% da
produção de Xavantinho e surpreende, em muitas faixas, com
Pena Branca fazendo várias vozes, como na Oração do camponês,
em que faz quatro. "Para agradecer a Deus tem que ser muitas
vozes", diz Pena Branca, com transparência ímpar. E também no
terno de reis Encontro de bandeiras, em que as suas vozes
voam.
Lembra (e muito) a sonoridade que ele e o irmão
consolidaram na música sertaneja de verdade. Atitude que lhes
deu, por exemplo, cinco prêmios Sharp no mesmo ano, em 1990, e
com o CD Cantadô de mundo afora, que continha Casa de barro,
música que recebeu no novo disco uma versão fabulosa com
violão e clarineta. "É tão simples que para quem está
acostumado com um exército tocando atrás fica difícil", pensa
ele, que não utiliza instrumentos elétricos.
O CD também recupera a última aparição da dupla
na tevê, quando lembraram da primeira música de Xavantinho,
Primeira cantiga. No programa haviam cantado apenas 30
segundos, mas a tecnologia permitiu recuperar esse fragmento e
Pena completou a canção. Semente caipira traz 15 faixas com 19
músicas que honram a música brasileira.
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